Reflexões e consequências da evasão maçônica

A Maçonaria cresce e fortalece-se à medida que novos membros são iniciados ou regularizados. E, de forma contrária, reduz o seu tamanho enquanto instituição quando os seus integrantes morrem, são expulsos, suspensos ou abandonam as suas Lojas. Estas entradas e saídas produzem um saldo.

Neste sentido, a evasão tem importância destacada, por normalmente ser o maior motivo de saída, bem como por ser uma causa evitável. As mortes e expulsões ocorrem em número menor e são mais difíceis de evitar.

Fazendo uma analogia com a área médica, podemos considerar a evasão maçónica como algo que prejudica a saúde da instituição, algo indesejável, patológico: uma doença.

No curso de uma patologia podemos ter três desfechos distintos: cura, cronificação ou morte.

Na melhor das hipóteses, a Maçonaria seria curada da evasão maçónica. Hipoteticamente, isto tanto poderia ocorrer espontaneamente (o que não parece ser a tendência), quanto através de um “tratamento”, da descoberta e implementação de um “remédio” ou “antídoto” para o problema.

Outra possibilidade é a evasão se tornar algo crónico. Neste contexto, a doença causaria muitos danos, prejuízos e até sofrimento; entretanto, não seria capaz de aniquilar a Ordem Maçónica.

Considerando um cenário sombrio, mas extremamente real e plausível, a evasão maçónica teria a capacidade de se alastrar, crescer e abater uma a uma as obediências maçónicas espalhadas pelo mundo. Seria a morte da Maçonaria.

Quantitativo X Qualitativo

O dilema da quantidade versus qualidade existe em vários contextos e em muitas instituições. Isto não é diferente na Maçonaria.

É bastante comum escutarmos de algumas lideranças maçónicas que o importante é a qualidade dos membros da instituição; que Lojas com muitos irmãos ou grande e numerosas iniciações são prejudiciais e comprometem essas qualidades.

Embora comum, este argumento não se sustenta em nenhum dado ou estudo, minimamente racional e objectivo. Ao contrário, tudo indica que que há uma relação inversamente proporcional entre quantidade e qualidade.

Saindo dos exemplos pontuais e analisando num âmbito mais geral, percebe-se que os maçons, na sua maioria, desejam que a Maçonaria permaneça existindo, que seja forte, que tenha influência, que esteja presente no maior número possível de cidades, que possua membros das mais variadas formações, para que possam aprender uns com os outros. Estes mesmos maçons, certamente, preferem pagar taxas mais baratas para permanecer na instituição, não querem sentir-se sobrecarregados na distribuição dos trabalhos maçónicos, além de desejarem que as suas sessões estejam repletas de irmãos, tanto do quadro da Loja, quanto visitantes.

Podemos perceber facilmente que o ambiente favorável que desejamos é aquele que a nossa Ordem disponha de um grande número de irmãos. Se continuarmos com muita evasão e poucos membros, consequentemente existirão menos Lojas, teremos de gastar mais dinheiro e esforços para manter a instituição, seremos mais fracos e teremos menos influência na sociedade.

Neste sentido, reparem que a existência de uma Maçonaria de melhor qualidade, necessariamente, passa pela existência de maçons em boa e suficiente quantidade.

Evasão Maçónica:

Na actualidade as evasões acontecem nas nossas Lojas simbólicas, com frequentes ocorrências de vários tipos; vejamos:

Evasão em que o filiado simplesmente abandona a Loja e a Potência;

A que o filiado solicita a sua saída, recebe o seu Atestado de Quite e durante seis meses visita outras Lojas, e não achando o que procura afasta-se da Ordem;

A que o filiado solicita o seu Atestado de Quite e se filia numa Loja de outra Potência;

Evasão interna, que se dá entre Lojas da mesma Potência, onde o obreiro se transfere para uma outra Loja;

Evasão onde um certo número de obreiros sai da sua Loja e fundam uma nova Loja;

Evasão por morte do obreiro;

Insegurança pública, sentida pelos irmãos idosos;

Decepção;

Compromissos particulares;

Problemas financeiros;

Preguiça – um dos sete pecados capitais.

Não é possível avaliar quais modalidades de evasão é a que mais incomoda, que mais causa prejuízos a uma Loja, ao constatar a redução do seu quadro social.

Durante esta pesquisa foram levantadas ainda como causas de evasão:

O abandono pelo padrinho;

Grupinhos ou isolamento de novos membros;

Fofocas, vaidades, “panelinhas”;

O uso do “EU”.

Em síntese, a existência da evasão é notória, bem como as suas causas e as suas consequências. Ora se este facto é uma realidade, o que devemos fazer para reter por mais tempo os nossos obreiros em plena actividade maçónica. A meu ver para combater de frente este fenómeno associativo, devemos primeiro estudar o que oferecemos ou podemos oferecer de estímulo para as Lojas e os seus membros.

Por outro lado, é do conhecimento de todos que há irmãos que ferem as normas, as doutrinas e juramentos maçónicos agindo como verdadeiros inimigos dos seus irmãos e da própria Maçonaria.

São aqueles que aproveitam o tríplice abraço para, covardemente, apunhalarem os irmãos que, por fraternidade, confiança e por crédito aos juramentos maçónicos, entendem que aqueles “cains” não vão intentar nada contra eles e as suas proles.

Muitos desencantam-se e fogem para nunca mais voltarem. Vão engrossar as fileiras daqueles Ex maçons que têm uma história a contar para justificar a sua saída da Ordem.

Outros enveredam pelos caminhos da corrupção, das negociatas e das falcatruas, desmoralizando a Sublime Ordem.

Ainda existem aqueles que entram na Maçonaria à procura de vantagens económicas, sociais e políticas, para logo de seguida se decepcionarem com a pureza da Maçonaria e baterem em retirada.

Há algum tempo atrás, li uma parábola em Loja sobre “As Egrégoras e o Carvão”, na verdade é que o “carvão” há de ser especial, o homem há de ser “livre e de bons costumes”, caso contrário, vai-se malhar em ferro frio.

Neste redemoinho de verdades e de triste realidade fica a indagação do que vem acontecendo. Por saber que o padrinho que indica o candidato e os sindicantes que investigam são mestres maçons é que se questiona se a qualidade da iniciação à Ordem Maçónica e a concretização da sindicância sobre o “modus vivendi” efectuada influenciem significativamente para posterior evasão.

Uma reflexão metodológica:

Os métodos e as normas para a admissão maçónica são obsoletos ou talvez inadequados?

Em resposta a esta indagação destaca os integrantes e os temperos que compõem o cardápio que vai sendo confeccionado e servido no banquete do dia a dia maçónico, sem que os seus comensais percebam o fel nele adicionado.

“O relacionamento e a convivência com os irmãos facultam conhecer vários problemas originados de política de grupos demandando supremacia doutrinárias, traições de irmãos contra irmãos, quebra de juramento maçónico. Outros casos são aqueles em que os irmãos, com toda a razão do mundo, saem da sua Oficina, inconformado pelos maus exemplos que vão surgindo.”

Existem outras deficiências como, por exemplo, a má administração de uma Loja e formação de grupos com atitudes mais materialistas e reprováveis possíveis contra aqueles que almejam praticar a verdadeira Maçonaria, sem mácula e sem sentimentos subalternos.

A ambição desmedida do poder faz que surjam dentro das Lojas grupos inconfidentes liderados por péssimos irmãos que se julgam “donos” das Lojas e de todas as verdades. E a partir daí destilam toda a sua mágoa contra quem quer os contrarie e não se coadune com os seus desmandos, hipocrisias, indignidades, corrupções e imoralidades!

Eis aí o que pode acontecer nos nossos orientes espalhados por esses cantos fora!

Há irmãos que não suportam tanta hipocrisia, maldade e tirania, preferindo assim sair das suas Lojas, pedir o seu Atestado de Quite e muitas das vezes nem pedem nada! Saem correndo para nunca mais voltarem, enojados de “profanos de avental”!

Surgem aí os dissidentes!

A Maçonaria, desta forma, tende a enfraquecer, mediante tantos e constante reveses.

A doutrina da Maçonaria é manter os irmãos unidos de modo que seja um só corpo, uma só alma, voltados para o eterno trabalho maçónico, qual seja, o bem-estar da humanidade.

Caso não existissem tantas rivalidades entre irmãos, as brigas e as querelas inexistiam e a Maçonaria seria beneficiada.

Diante de tudo que foi exposto, sugiro, para que os trabalhos na nossa Ordem melhorem factorialmente, e que se eternizam para sempre justos e perfeitos.

É importante mudar tudo aquilo que for detectado como procedimento erróneo.

É hora de sacudir e espanar as nossas colunas!

É hora de prever e prover!

É hora de fiscalizar para moralizar! Exigir responsabilidade para com a Maçonaria daqueles que prestaram o juramento de zelar por ela e protegê-la custe o que custar.

Encerro!

É sabido que temos problemas no relacionamento interpessoal e inter-autoridades, que muito nos preocupam. E é por isto que urge sejam adoptadas providências e decisões para que possamos melhor arrumar a nossa casa; por outras palavras, precisamos de concluir o dever de casa.

Mesmo porque, enquanto perdurar as evasões dos nossos quadros, não teremos como pensar num retorno a elite do nosso país, como bem o fizemos no passado, liderado por meio dos nossos obreiros os grandes acontecimentos para a construção da nossa identidade nacional.

Finalizo com o seguinte pensamento:

“É duro para um agricultor após arar a terra, adubá-la, prepará-la e semeá-la e, com toda a esperança do mundo e defrontar-se, meses depois, com um arbusto mal crescido e um fruto minguado, não chegando perto do que se espera obter em tal empreitada!”

Texto: Luiz Alberto Abdalla da Silva – M∴ M∴